autor – Hélio Strassburger
título – A realidade visionária da loucura
“(…) uma ciência que seja capaz de determinar o sentido que as coisas têm para a vida ao seu redor. Os que elaborarem este diagnóstico terão que ser treinados em significação e não em patologia, e o tratamento terá que ser feito com idéias, não com sintomas.” Clifford Geertz

O saber local
O pressuposto para a loucura só ver miragens ou não conseguir formular idéias, encontra fundamentação nas lógicas do estrangulamento das intencionalidades. Assim, enganam-se àqueles em busca de erro, ao visar descobridor supostamente encarcerado no outro. Um olhar assim, a perder de vista, reflete-se numa cosmovisão delirante.
Várias abordagens querem tratar a loucura, como se esta precisasse ser domesticada. Nas práticas ideologizadas da conversão, o esquecimento e a segregação constituem regras. A impertinência do filme “Estamira” de Marcos Prado, revela um ser humano diferenciado na radicalização do existir difuso. A personagem principal, ao dizer que ‘sua missão, além de ser Estamira, é revelar a verdade’, compartilha perspectivas de alguém julgada incapaz para mundos que não o lixão em Duque de Caxias.
As dialéticas da exclusão concedem solenidade aos que não conseguem transgredir a nada estranha relação entre normalidade e loucura. Para acolher a humanidade por trás das representações, um algo mais vai esparramando personagens na vida real. Edição singular em propósitos de descoberta.
Onde Estamira compartilha o lixo alheio, insinuam-se utopias de estranheza e integração. No dizer radical dos silêncios uma cumplicidade se estabelece. As pessoas encontram-se exiladas nas coisas, em um tempo que aparece impróprio. As circunstâncias ao redor falam por si mesmas.
Ali a filosofia poetisa seu aparecimento em diálogos com a estrutura até então inimaginável. A linguagem desestruturada articula discursos num convívio de intimidade com os mundos da privação. Neste sentido, o lixão institui-se como ordem e caos. Desordenados na fonte de inspiração a repercutir ânimos diferenciados. As distâncias aproximam contradições num visar acolhedor ao in-sano.
Na integração dos contrários a expressividade imediata articula-se por aquilo tudo ainda sem tradução. Um viés de tipo novo desorienta-se em trajetos na pluralidade dos fenômenos. O lixão de Estamira talvez consiga elucidar verdades na contradição com as maquiagens da normalidade.
A invenção da vida aparece nas transições de incompletude. Animar algum sentido, na intimidade das complexidades de uma relação onde manifestações de contrariedade e semelhança interagem na conversação hermética dos rituais. Ao ser incompreendido um viver esboça sinais nos cotidianos segredos. Visibilidade a deixar rastros na semiose de aparente sem sentido da loucura. Gaston Bachelard poetiza ao ensinar: “A meditação dessa descontinuidade temporal realizada pelo instante isolado, nos abrirá os caminhos mais diretos para uma pedagogia do descontínuo.”
Existir marginal no contraponto em clima de festa sem sentido. A reflexão denuncia múltiplas facetas sem deixar de lado as diferenças. Os manuscritos da insanidade questionam: como pode existir algo que ninguém mais vê ? A inquietação do louco sugere um filosofar de longo alcance. Em Platão a sabedoria é humana e a loucura é divina. Algo mais na pluralidade do teatro das aflições, onde as desconstruções sugerem um depois de amanhã. Idéias possuem vida própria na estrutura de pensamento do louco. Na epistemologia indiferenciada de realidade-ilusão, a fantasia ensaia verdades em um dizer que permanece – inconcluso -.
Simulacros de sentido próprio dialogam com sensações ainda inarticuladas. Denúncia para as possibilidades expressivas, onde fronteiras entre o mundo sensível e intelectivo deixam de existir. Ao antecipar novidades, talvez consiga alternativas a um amanhã enigmático ao sentir embassado na proximidade do presente. Incerteza em olhares de absurdo nas conexões de um nada a interrogar-se na im-permanência dos labirintos.
O desacordo característico dos sinais pode antecipar mudanças em contraponto com insinuações de sentido único. Na loucura, a livre expressão do espírito, tão acostumada aos deslizes na esfera subjetiva, se vê problematizada ao tentar imprimir algum sentido a empiría que a cerca cada vez mais. O não-ser divergente talvez possa integrar novidades nesse jeito estranho de viver. Em algum ponto entre o mito e o logos, uma dança insinua versões ao fenômeno humano. Um sentir extraordinário se faz cúmplice destes desatinos de não-ser.
Assim, inexistem limites à subjetividade in-sana. Seus discursos percorrem o indizível em suposições de longo alcance. Constituem liturgias de singularidade na coexistência com as formas de sua interioridade. A semelhança com aquilo que já existe é real, embora a descrição revele esconderijos até então desmerecidos pela miopia da razão.
Ambientes nem sempre traduzíveis ao olho nu das palavras, conseguem descortinar paisagens a quem fora educado para ver sempre o mesmo. Pensamentos, sonhos ou realidade, se confundem no transfigurar das evidências em lógicas inimagináveis. Assim, o sujeito, em acessos de criação e descoberta, configura-se numa relação com sensações e abstrações de tipo único. Jorge Luis Borges refere: “uma língua não é, como somos levados a supor pelo dicionário, a invenção de acadêmicos ou filólogos. Ao contrário, ela foi desenvolvida através do tempo, através de um longo tempo, por camponeses, por pescadores, por caçadores, por cavaleiros. Não veio de bibliotecas; veio dos campos, do mar, dos rios, da noite, da aurora.”
A manifestação estética alia-se para traduzir os inesperados recantos da loucura. Como fonte de expressividade e trânsito por lugares desconhecidos e sem fronteiras. Cúmplice ao extravasar, em ditos de insensatez e sem nexo aparente, tudo aquilo em ímpetos de ultrapassagem. Viver clandestino dessas formas, onde a perspectiva delirante propõe elucidar lacunas as distorções da realidade. Sensações intermediárias apelam em vocabulários até então inexistentes, para veicular suas verdades. Trata-se de descobrir outros caminhos aos desatinos destas evidências do acaso. Ao surgir transfigurado das visões, constitui-se uma diversidade avessa ao ser único da normalidade. Nesse confronto diário as especulações alargam horizontes e subvertem certezas.
Um fora do comum introduz algo mais a soar estranho. Indizível a perturbar contextos até então eficazes aos convívios. Assim aparecem os horizontes: como um compartilhar possível na simples versão cotidiana. No entanto, ao tentar encontrar representação para narrar o que vê, ouve e sente, a linguagem se empobrece. As fugazes percepções denunciam aspectos até então insondáveis destes abismos da interioridade.
Na transgressão dos espelhos a especulação mantém diálogos com as incertezas a perder de vista. Talvez a alienação da empiría favoreça um esboço a estes arrebatamentos da abstração. Quando se atinge algum grau de tradução, e os rituais da normalidade pensam ter adequado seus conteúdos as estruturas do entendimento, a vida prossegue através de um devir em sobrevôos ao extraordinário descortinar.
A imaginação e o delírio possuem efetividade na relação inconclusa com a experiência sensível. Apesar de reivindicar alguma verdade para si, não possui uma sistematização dos signos com os quais poderia elaborar-se como algo inteligível. O devir da loucura in-diferencia as idéias de sua correspondência empírica. Personagens de sonho e realidade integram-se o tempo todo. As problemáticas costumam surgir quando o louco propõe comunicar aos mais próximos, aquilo que sente e percebe como realidade.
Magia a vincular-se em ditos e adereços de pluralidade, na perspectiva integradora do dessemelhante. Ernest Cassirer elabora uma reflexão sobre indícios contidos nas transgressões do querer dizer da loucura: “a linguagem deve ser compreendida como algo que se está eternamente produzindo, em que as leis que regem a produção são definidas, enquanto o alcance e, de certa maneira, a natureza do produto permanecem totalmente indefinidos”. Contextos de sem nome alternam-se nas derivações da palavra.
Na inquietação dos aparecimentos, desvela-se a irrealidade em múltiplas formas. No alternar dos instantes o vai e vem se refaz em ondas. A loucura oferece abrigos inicialmente estrangeiros, até então, irreconhecíveis pelo ineditismo dos adornos e adereços. Situação única a tentar dizer, nos imprevisíveis achados, sobre a ilusão de aparente sem sentido. Intencionalidades nem sempre conseguem dizer o indecifrável por trás dos papéis existenciais.
Quando a sociedade, representada pela família, o alienista e o aparato jurídico impõe excluir o discurso desatinado, institui-se em seu lugar, correções para sustentação da normalidade. Funda princípios e normas para rechaçar a diferença. Assim, alguém precisa ser escolhido para agregar o lixo produzido pelo convívio social.
Outras verdades se descortinam nas insinuações delirantes. A loucura, no entanto, experimenta malabarismos de especulação. Uma de suas regras preferidas é a transgressão dos consensos, em vontades de re-criar o mundo inteiro.
Um sujeito assim estruturado constitui uma espécie de maldição, por onde os deuses divertem-se nos ensaios. Esboço continuado em fascínios imprevisíveis na imensidão das promessas. Ao visar das novas perspectivas coloca em funcionamento uma fábrica de raridades. Talvez os sonhos com a vida real consigam ultrapassar isto tudo, esparramando vestígios no dia, ao desdobrar das sombras interditas.
Quem sabe o olho da rua possa revelar seus outros espaços de convívio, até então insuspeito, nos endereços de recém chegada. Hieróglifos constituem a língua preferida nas falas de aparente sem sentido. A sensação nada estranha de estar em casa na presença do desconhecido sem rumo. Saber inconcluso na insinuação ao espírito criativo. Algo mais ainda não revelado à arte de viver. Dialogar com essas estruturas propõe grande aptidão no manuseio das incertezas. Transitar por entre aparências de um quem sabe, na versão inesperada das interseções com a singularidade.
Donaldo Schüler ao recordar Heráclito diz: “ele sofria de hidropsia, doença adquirida nas montanhas onde vivia longe de todos, alimentando-se de ervas. Atormentado pela enfermidade teria procurado médicos perguntando-lhes se sabiam transformar inundação em seca. Como não entendessem a pergunta, Heráclito enterrou-se em esterco de vaca na esperança de, com o calor, provocar a evaporação do líquido acumulado no corpo. Morreu na imundície. Seus detratores entenderam de atacar assim suas sentenças enigmáticas. Fizeram do pensador obscuro um louco. Castigaram o filósofo que afirmara que psiques se transformam em água.”
Através destes intervalos de tempo, um esboço persegue signos de compreensão. A meia-luz o irreal experimenta distorções de não-ser. Investiga-se, todavia, o intermédio ponto que não é mais presente e ainda por vir. O pensar desestruturado se faz poesia, na incompletude dos re-começos. Revelação em paradoxos de compreensão para com seus contrários. Esconderijos bem protegidos destoam do espírito de multidão. Idéias de complexidade encontram, nas dialéticas do delírio, fonte de inspiração a variedade dos ensaios.
O saber contido pela exclusão das tipologias, anima-se em desdobramentos de ser in-sano. Capacidade de adaptar-se na articulação em sons de diversidade. Os métodos da Filosofia Clínica, talvez consigam favorecer interações com exóticos recantos. Lugar de convergência e aprendizagem com estas fontes de raridade. Ponto de partida ao inimaginável e ainda sem rosto prosperar com as formas da inexatidão. Assim, possibilidades de maior alcance sugerem a proteção aos diagnósticos de exceção. Manifestação em vontades de ser imprevisível nos signos de singularidade.
Arranjos nem sempre verificáveis antecedem as descobertas: delírios, esteticidades e devaneios assumem atitudes de in-completude no devir das superações. Primitivas autonomias desvelam-se com a des-razão. O caos inicial concede pontos de partida a outras integrações. A partir de agora não se trata de separar, classificar ou diagnosticar. O mundo re-inventa-se na esquisitice das transgressões.
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