Vídeo Comentado: Pré-Juízos

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Na filosofia clínica, tratamos dos pré-juízos como verdades subjetivas que a pessoa traz previamente e que entrarão em contato com suas vivências. Por exemplo, algo é assim para ela, antes mesmo de conhecer mais a seu respeito.

Portanto, pré-juízos dizem respeito a verdades, tratam do que é a priori e tendem a uma conclusão, um dado que se cristalizou em uma verdade.

Em alguns casos, os pré-juízos não passam por questões ligadas aos defeitos ou  virtudes. Os pré-juízos correspondem a tudo o que uma pessoa é, tudo o que ela pensa ser, fazendo parte de suas crenças e verdades subjetivas, e que também para o “outro”, ocorra desta forma.

Neste caso, no vídeo percebemos questões sobre o espaço deste “outro”, expressando suas verdades.

Podemos ser diferentes e ainda assim estarmos certos, tudo ao mesmo tempo. É preciso, na medida do possível, partindo-se de cada estruturação, abrir caminho às diferenças.

Bruno Packter

Leia outras informações sobre este assunto, publicado neste site: VERDADE E MÉTODO, As grandes linhas de uma hermenêutica filosófica de Hans George Gadamer.

Questões Práticas na Clínica Filosófica

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Bruno Packter
Florianópolis – SC 

“Penso que a clínica se inicia, quando a pessoa cogita a possibilidade de fazer terapia. A partir daí, numa sucessão de eventos, ela faz a sua escolha, no que se refere o profissional que irá atende-la. Neste momento, o sujeito já esboça alterações comportamentais, como o caso de S., sem queixas de insônia, alcoolismo e depressão: “Quando decidi te procurar, indicado por uma amiga das caminhadas no parque, logo imaginei como deveria me vestir para encontra-lo, precisava arrumar o cabelo que estava horrível e escolher um sapato adequado! Ouvi dizer que filósofos clínicos não medicam, não internam e não acreditam em loucura! Afinal, agora eu tinha alguém para me entender! Naquela noite, após marcar a consulta, dormi sete horas diretas, sem precisar da minha cervejinha.”  - Hélio Strassburger

Aprendemos em Filosofia Clínica que, às vezes, somos ensinados pelos partilhantes.

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O que pode ser ensinado na clínica filosófica?

Também, aprendemos a fazer o trabalho clínico ouvindo, indo e retornando ao outro que nos procura, através de sua demanda existencial.

Muitas vezes, na clínica trabalharemos assuntos como: marido procurando a clínica diz: ”… gostaria de melhorar a qualidade de vida.”, a esposa: “…entender se é possível continuar este relacionamento… quero ser sujeito nesta história…”

Certa ocasião prestei atendimento a uma mulher que colocava como assunto imediato: “como faço para lidar com meu marido, com a minha vida?”

Após conversas com o marido: pessoa com estrutura rígida e complexa, e as verificações com a partilhante da historicidade, dados divisórios e enraizamentos descobrimos juntos que estas demandas não teriam “resoluções” para aquele momento. Necessitariam do tempo, paciência, caminhadas nas ruas próximas ao Hospital que eu atendia, “imposição das mãos” como ela chama, confidências e a arte de ouvir. Passaram cinco anos, soube que seu marido havia falecido e nesta mesma época a encontrei na rua conversando com uma amiga e estava subjetivamente irradiante.

outros como: “ … quero descobrir melhor meu eu e entender mudanças perspectivas…”, “ …conseguir saber apenas o motivo dos meus problemas familiares.”,

Um atendimento que me foi encaminhado na época em que eu estava começando minha atividade clínica tratava de um senhor que se apresentava com extrema vivência deste mundo.

canarios-thumb1Começamos o atendimento. Pessoa prolixa. Após muito tempo de atendimento percebi situações curiosas: agendamentos fortíssimos na família de casos de “loucura” e internações que tinham início pelo seu pai e passando por gerações. Também, algo curioso, atrás desta E.P. com certa idade sensorial, vivências em outros países  e tudo o mais havia um menino assustado no tópico emoções. Curioso, mas também causador de grande sofrimento. Parte da tristeza que levava era a “solidão” que sentia, pois não encontrava na sua companheira o ouvir necessário. Na clínica, às vezes, eu recebia os atributos de irmão e outros.

“Como fazer para encontrar as respostas para as minhas dificuldades do dia-a-dia…doenças desencadeadas devido ao stress?”, “Como eu faço pra superar as dificuldades de convivência, viver de forma harmoniosa com as pessoas?”,

Através destas duas questões, iniciamos eu e uma partilhante um trabalho que tiveram poucos encontros, mas com grandes eventos.

Lembro que estávamos na colheita de seu histórico. Em um final de semana, precisei viajar para o sul do estado de Santa Catarina. Estava fazendo um curso relacionado à atividade clínica. Comecei a receber uma série de telefonemas desta partilhante. Num deles, havia entendido que teríamos atendimento na clínica onde trabalho. Numa distância de 200km, recebi uma ligação:” alô, Dr. Bruno! Estou aqui na clínica esperando o senhor.” Tinha misturado bebida, alcoólica, algumas drogas controladas e outras. Pedi para que colegas que estavam na cidade dessem auxílio a esta partilhante que foi encaminhada a um hospital para receber desintoxicação. Com meu retorno à cidade, retornamos nosso trabalho. Por estes dias, soube que está casada e está morando numa cidade no sudeste do país. Parece que está continuando seus estudos.

Neste sentido, desta procura de ensinar a viver, existem situações que chamam a atenção. O assunto inicial, nem sempre é este. Às vezes, aparecem como pedido de socorro e continuam assim durante um bom tempo da clínica. Vários e-mails e telefonemas me informando: “agora vou acabar com tudo mesmo, Bruno!… não tem mais volta…”

Estruturas caóticas de pensamentos, resultado de anos de maltrato consigo e com os outros, que em muitos casos o ouvir é o melhor remédio e que cumpre a função de analgesia… O que fazer? Nessa nossa contingência de sermos humanos e cuidadores…

“Cada caso é uma aprendizagem, é um partilhar e compartilhar a vida de um outro alguém, é colocar em cheque nossas verdades estabelecidas, sejam elas consensuais, subjetivas ou por correspondência, e reconstruir nossa existência a partir de novos dados. Se para aquele caso for adequado confrontar a verdade subjetiva à verdade por correspondência, isso será feito, se não o for, para que fazê-lo?

Quais os critérios para determinar o que é adequado? Os dados fornecidos pela própria pessoa, sujeito existente em seu contexto, com uma circunstância determinada e ao mesmo tempo determinante, por isso a verdade em Filosofia Clínica é subjetiva.”  - Monica Aiub

Diante de vários casos e exemplos lembro de alguns com estes assuntos citados que iniciaram a clínica e penso que continuaram pela vida de algumas destas pessoas:

canario2-p1160897“ Preciso da clínica pra saber o que realmente está acontecendo comigo, pois tenho muita ansiedade, aflição…”, “ Como fazer pra conseguir a confiança do meu marido novamente?”, “Entender o motivo de uma desilusão e conseguir entender saber todas as verdades desta desilusão que me machucou…”, “Preciso aprender a se menos nervosa…”,” …poder falar sobre a minha pessoa pra que eu possa me abrir mais… como aprender isso?”, “… ter dificuldades em saber o que eu quero…”, “ Eu preciso aprender como eu faço pra não explodir quando alguém me critica.”, “Eu quero saber como é  que me acalmo quando o mundo desaba, porque eu entro em pânico.”

Lembro de outro que no primeiro momento da clínica a pessoa colocou:

- “Olha, eu não acredito em terapia alguma. Ouvi falar desta nova Filosofia Clínica e estou aqui. Mas o que preciso realmente é o seguinte tenho que resolver amanhã uma questão profissional importante na minha vida. Preciso respostas, qualquer coisa, preciso entender tudo isso… preciso de um chá, um placebo. O que você pode me oferecer?”

Coloquei como funcionava meu trabalho e, após fiquei em silêncio, no final da consulta acompanhei a pessoa até a porta. Tivemos somente este encontro. Liguei pra sua casa nesta mesma semana e soube pelo seu namorado que a pessoa estava de cama… tinha pego uma “gripe fortíssima”.

Qual procedimento precisamos adotar quando aparecem estas demandas epistemológicas? Ou, o que busca uma pessoa aprender no consultório de um filósofo?

O Filósofo Clínico trabalha os efeitos sem saber as causas? É assim que se inicia?

Para Sócrates, ensinar era levar a pessoa a exaustão completa, através de perguntas.

Mas, pelo processo histórico epistemológico, esta maneira de ensinar recebeu contribuições de diversas escolas filosóficas.

E na Filosofia Clínica, como acontece isso?

Como ensinamos, por exemplo, alguém a viver, a ter o primeiro beijo, o primeiro emprego, a primeira demissão, a primeira decepção e até mesmo a morrer.

Em muitos casos, a maioria das pessoas aprende na própria vida, ou seja, no calor dos eventos mesmo.

Quando o filósofo, na clínica filosófica, tiver que ensinar epistemologia a uma pessoa fará com que ela apreenda a crescer da maneira como sempre fez ao longo de sua vida, apesar de todos os estados de coisas e tudo o mais que tratam desta estrutura de pensamento.

Em outras palavras, é preciso saber como a pessoa que nos procura aprende usualmente as coisas na sua vida diária.

Algumas pessoas aprendem vendo as outras fazendo, outras seguem a razão, o coração, por agendamentos que caibam na sua estrutura de pensamento e assim por diante. Precisamos recorrer à historicidade da pessoa pra entender seus próprios caminhos.

Epistemologia na clínica filosófica e na vida é aprender e ensinar: explicar para alguém como ele pode ser um amigo pra você, por exemplo.

Às vezes, são necessários ajustes neste processo de aprendizagem com o outro: muitas vezes, exercícios de paciência, com erros e acertos, perdoando e continuando…

FILOSOFIA CLÍNICA & CINEMA

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clip_image002O uso do cinema como recurso didático ao ensino da Filosofia Clínica

Márcio José Andrade da Silva
marciojosefc@terra.com.br
INSTITUTO PACKTER – RS
Centro de Filosofia Clínica – Campinas/SP
CEFIB – Centro de Filosofia Brasileira – UFRJ
CEUCLAR – Centro Universitário Claretiano – Campinas/SP

TOMADA 1 – A FILOSOFIA CLÍNICA

A Filosofia Clínica é a filosofia acadêmica utilizada como procedimento terapêutico. Esta é a pedra basilar de uma definição apriorística do que denominamos Filosofia Clínica. Mas não a filosofia em sua totalidade é utilizada em terapêutica, a Filosofia Clínica não utiliza-se apenas de um único sistema desenvolvido por um pensandor, ela irá analisar em cada sistema filosófico o que melhor se adéqua a uma terapia, afinal são mais de 2.500 anos de pensar o homem e suas relações. Montando assim uma terapia voltada ao sujeito, não o querendo encaixar em uma tipologia terapêutica. “A seu modo, observou, no relato das histórias das diferentes pessoas, correspondências entre as concepções de vida nelas reconhecidas e as várias teses fundamentais das grandes correntes teóricas do pensamento, de tal forma que nenhuma destas, sozinha, teria sido capaz de explicar satisfatoriamente a diversidade humana. Com disciplina procedeu sempre na mesma direção das pessoas para as teorias.” (GOYA)

A história da Filosofia Clínica começou na década de oitenta do século passado – e isso não faz muito tempo apesar do que o termo teima em nos dizer – Lucio Packter iniciou sua pesquisa ao que ele veio denominar mais tarde Filosofia Clínica. Fruto de questionamentos existenciais diante das não respostas dadas pelas psicanálise e psiquiatria. Em suas viagens para conhecer outras formas de terapias, Lucio Packter esteve na Europa, vislumbrou “uma Filosofia voltada à Clínica. Frente às filosofias de aconselhamento que encontrou por lá, considerou ser possível algo que fosse além. Na volta ao Brasil, se debruçou no estudo exaustivo das condições existenciais, onde cada ser humano deveria ser o sujeito de seu próprio existir e respeitado em sua singularidade, pois cada um tem seu modo de ser no mundo.” (KRAUSE). Contudo, uma questão inicial se fez: como seria um filósofo terapeuta, quais procedimentos éticos e cognitivos e quais técnicas utilizaria? Lúcio apresentou formalmente esta pesquisa como um anteprojeto de pós-graduação em filosofia e psicanálise, em 1993, com o título de “Filosofia Clínica: uma introdução à psicoterapia filosófica”. Seu objetivo acadêmico era “significar a atividade do filósofo no exercício da psicoterapia, a principiar desde o consultório: um preâmbulo analítico a respeito do serviço estruturado na clínica filosófica” (PACKTER:1993). Nestes estudos percebemos como são utilizados os “escritos filosóficos, textos, reflexões pesquisas e descobertas de pensadores como Sócrates, Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Locke, Hume, Kant, Hegel, Nietzsche, Marx, Hurssel, Wittgenstein, Hediegger, Foucault, Popper, Searle e muitos outros” (BOARI & CLAUS).

A primeira turma de Filosofia Clínica surgiria na década de 90, com a abertura do Instituto Packter, em Porto Alegre/RS, com este nome homenageava seu avô Bernardo Packter que sempre o incentivou e a quem reputo como uma das pessoas a servir de referência à parte da alteridade na Filosofia Clínica. A Filosofia Clínica baseia-se nestes conhecimentos filosóficos em uma terapia do indivíduo, aplicando as teorias filosóficas nas possibilidades do ser humano, enquanto este se realiza por si mesmo. Uma leitura mais aprofundada nesta proposta poderá ser realizada no livro Propêdeutica – Filosofia Clínica, disponível no site do Instituto Packter.

Segundo Protágoras, “o homem é a medida de todas as coisas”, isso, para a Filosofia Clínica torna-se a primeira lição fundamental a ser apreendida. Aquilo que a pessoa sente, vive, afirma, imagina, faz é assim para ela, independente das opiniões alheias. Cada pessoa é a medida de todas as coisas, pois ela irá experenciar o mundo de forma única, mesmo que utilize formas de mensuração de outras pessoas. Assim chegamos a afirmação que na Filosofia Clínica existem dois tipos de verdades. A subjetiva, resultado da experiência única da pessoa e a verdade convencionada, consensual, estabelecida de forma conjunta por todas as pessoas. Como por exemplo, a sinalização de trânsito, a marcação do tempo no relógio. São algumas das verdades convencionadas.

Interseção

clip_image004Tudo em clínica é a resultante da qualidade da Interseção entre o filósofo e a pessoa. Contudo não é apenas num atendimento que haveria interseção, ela ocorre no nosso dia a dia. E é fácil perceber se a interseção é positiva, negativa, indeterminada ou confusa. Por exemplo, uma interseção positiva é aquele que é subjetivamente aprazível às pessoas envolvidas. Ou as pessoas podem estar vivendo subjetivamente mal a relação, esta seria uma interseção negativa, uma interseção ruim, desagradável, conflitante às pessoas, mas que por mil razões elas resolveram não romper esta interseção, como um casal que pode estar vivendo uma relação difícil, subjetivamente desagradável para ambos, mas optaram por conviver até que seus filhos possam viver por conta própria. Na interseção confusa não é possível identificar se as pessoas estão existencialmente bem ou mal subjetivamente em relação à outra pessoa. E na interseção indeterminada a pessoa praticamente possui uma polaridade em relação à outra pessoa, se sente bem e não se sente bem subjetivamente. Mas, é através da interseção que iremos perceber que “existe um ponto de frágil equilíbrio nas relações entre as pessoas. Alianças para aproximação com o extraordinário da condição humana. Pelas rotas de acesso, a representação de cada um, vastos e inexplorados continentes podem mostrar-se.” (STRASSBURGER). Onde cada pessoa é um conjunto composto de elementos (conhecimento, cultura, emoções, componentes genéticos etc.). Assim também é outra pessoa com que se estabelece a interseção, e talvez, através destes elementos tornem a interseção possível. Toda a clínica está na dependência direta da interseção. Pode ter-se o domínio perfeito do conhecimento e da prática da Filosofia Clínica, mas tudo isso não será útil se a qualidade de interseção for ruim à atividade clínica. “Quando me referir à boa qualidade de interseção estarei me referindo à empatia, sintonia, harmonia, amizade, interesse mútuo em proveito de uma causa, basicamente.” (PACKTER). Assim, podemos definir a filosofia clínica como um procedimento terapêutico aplicado a uma relação particular, estabelecida entre o filósofo clínico e o partilhante.

Historicidade

A parte essencial para o trabalho com a Filosofia Clínica denomina-se Historicidade – a história de vida do partilhante, contada por ele mesmo – que é analisada em três partes distintas, mas interligadas: Exames Categoriais, Estrutura de Pensamento e Submodos.

Na Historicidade, propriamente dita, o filósofo clínico irá colher o relato de vida da pessoa que o procura. Esse relato, para efeito da terapia terá de ser realizado de forma cronológica e sem saltos lógicos, ou seja, evitando-se que a pessoa fique contando sua vida de forma que os anos fiquem embaralhados de forma desordenada, e também evita-se que o relato seja de forma incompleta no assunto tratado. Assim para possamos compreender e nos aproximar o máximo possível da verdade do indivíduo, faz-se necessário “reconstruí-lo a partir da historicidade que o constitui e isto nos leva a refletir sobre as origens ‘deste’ pensamento e seu conteúdo. Nosso pensar obedece a razões históricas e estas modelam o presente: nossos sistemas de pensamento não são independentes de sua história e cultura, estão imbricados nestas.” (PARDAL). O filósofo clínico terá uma espécie de autobiografia da pessoa, e é a partir desse ponto que o trabalho realiza-se. Sempre levando em conta que tudo o que foi relatado é “assim para ela”. Pode ser uma biografia incompleta, com negações do passado, etc. Como poderá o filósofo clínico saber? À priori ele nada sabe. Por isso evita-se, em um primeiro momento da clínica encher a pessoa de perguntas, por dois motivos básicos, o primeiro você pode desvirtuar o relato da pessoa. Perguntar sobre questões que não foram abordadas por ela pode, muitas vezes ocorrerá isso, desviar da história da pessoa como ela compreende, transformando-se em uma história que servirá para responder ao terapeuta. O filósofo tentar forçar uma intervenção pode causar uma “carnificina existencial” na pessoa. Nada sabemos da pessoa que está à nossa frente. Uma das poucas certezas que temos é a de saber que devemos apenas negociar uma possibilidade de diálogo, seja através da própria conversa, ou fotografias ordenadas cronologicamente e comentadas pela pessoa, ou outra forma de expressão que essa pessoa possua. Muitas vezes é o único caminho que o filósofo tem.

Exames Categoriais

clip_image006Nos Exames Categoriais, a primeira parte da clínica, reportamo-nos aos ensinamentos de Aristóteles (384-322. a.C.) e Kant (1724-1804). Em estudo realizado, José Mauricio de Carvalho nos explicita a fundamentação teórica das categorias na Filosofia e traça uma possível leitura realizada por Lucio Packter para a aplicabilidade das Categorias na Filosofia Clínica:

“Categorias é um conceito antigo na filosofia. Na Grécia Antiga, Platão entendia categoria como sendo as determinações da realidade e as noções usadas para compreendê-la. Aristóteles denomina categorias os modos como o ser pode ser concebido. (…) Com o passar do tempo, o conceito sofreu alterações importantes e, na Idade Moderna, o filósofo alemão Emmanuel Kant alterou o modo de referir-se à categoria. Ele não fala mais em predicado das coisas mesmas, mas no modo pelo qual a consciência organiza o conhecimento das coisas. (…) Edmund Husserl considera categorias como conceitos que explicitam aspectos de diferentes regiões da realidade. Ele entende que o mundo posto na consciência aparece sob a forma de estratos, onde cada um tem suas categorias explicadoras, isto é, o modo como a consciência compreende aquela parte do real. (…) Lucio Packter clip_image008fala de categorias como predicados do ser, recordando o que havia dito Aristóteles, mas fica claro pelo que ali diz que ele está próximo do conceito elaborado por Husserl. Embora esteja falando das categorias no modo como elas são consideradas na lógica formal, o pressuposto do criador da filosofia clínica é que as categorias fornecem a quem ajuda o partilhante ‘uma compreensão íntima do modo de estar no mundo das pessoas, sempre condicionado à qualidade das interseções.’” (CARVALHO). Desta forma a Filosofia Clínica irá utilizar-se de cinco categorias como forma de localizar existencialmente a pessoa: 1) Assunto Imediato e Último: o que leva a pessoa a procurar o filósofo clínico, 2) Circunstância: somatório de singularidades que acompanham uma situação, 3) Lugar: mensura-se como a pessoa sente (sensações) e pensa (idéias) a propósito do ambiente que está inserida, 4) Tempo: Qual a relação entre o tempo convencionado e o subjetivo e 5) Relação: é o comportar-se de determinada maneira em relação a determinada coisa. Com os exames categoriais o filósofo clínico terá a capacidade de localizar existencialmente a pessoa nos momentos por ela relatados. “Tudo em Filosofia Clínica, é avaliado a partir da especificidade da pessoa. Nosso método consiste em acompanhar a historicidade daquele que nos procura, assumindo uma postura fenomenológica, no sentido de perceber o modo de ser da pessoa, suas questões, seu contexto, procurando intervir o mínimo possível nessa história, mas percebendo que a mesma vai se apresentando a partir da interseção clínico-pessoa.” (AIUB). Os exames categoriais terminam quando o filósofo clínico sabe identificar e contextualizar, com uma grande aproximação, as informações que a pessoa lhe fornece.

Estrutura de Pensamento

O próximo passo da clínica filosófica é quando o filósofo clínico passa a pesquisar a Estrutura de Pensamento (EP) da pessoa. Essa estrutura é o modo como a pessoa estar existencialmente. É a maneira como toda sua vivencia (religiosa, ética, social, etc.) se associam em você. Se, os exames categoriais foram realizados corretamente, este procedimento agora será de fácil desenvolvimento.

A Estrutura de Pensamento é constituída por trinta tópicos que identificam as várias relações e as várias resultantes destas relações estabelecidas entre a pessoa e os mundos exteriores e interiores. Por exemplo, no Tópico 1 (Como o mundo parece…) serão colocados tudo o que a pessoa relatou sobre o mundo em que ela vive. No Tópico 2 (O que acha de si mesmo) coloca-se tudo o que a pessoa falou a respeito do que ela acha de si mesma. O Tópico 4 (Emoções) conterá todas as emoções da pessoa: amor, perdão, ódio, carinho, tristeza. No Tópico 5 (Pré-Juízos) serão colocadas todas as verdades que pessoa possui antes de viver um acontecimento, são os juízos à priori. Esta relação se estende até completar 30 Tópicos. Estes são insuficientes para entendermos uma estrutura de uma pessoa, mas acontece que os tópicos interagem, transformando-se em tópicos com características dos que interagiram. A pessoa não irá procurar o filósofo clínico afirmando estar com um choque entre os tópicos 1, 4 e 5. Provavelmente irá procurá-lo afirmando estar sentindo um grande vazio em seu coração, uma dor de cabeça que não passa, na da faz mais sentido, etc. Cabe ao filósofo clínico identificar esses choques, conflitos, más associações entre os tópicos da pessoa.

Vale a pena lembrar que para a Filosofia Clínica não existe normal x patológico, não existe doença x normalidade. Se uma pessoa extirpou, matou, anulou um tópico como o 4 (emoções) de sua vida, não significa que ela seja anormal, doente, reprimida ou qualquer outro rótulo. Significa apenas que, diante do que esta pessoa vivenciou aconteceu isso. Talvez essa seja uma forma dela estar bem subjetivamente, sem seus sentimentos, sem amar, sem odiar. Talvez esta seja a única maneira que ela encontrou para viver após ter sofrido tudo que podia suportar. Quem sabe para julgar, censurar, dizer o que ela deve fazer? Quem viveu na pele dessa pessoa para poder afirmar que ela deve liberar suas emoções, entrar em contato com seus medos e dores para poder viver melhor? Talvez fazendo assim estejamos cometendo um crime existencial. O filósofo clínico deve procurar compreender o todo para as partes ou das partes para o todo.

A Filosofia Clínica irá busca exercitar existencialmente a pessoa, abrindo caminhos entre os emaranhados existenciais conforme os caminhos da pessoa, conforme as contingências que lhe são próprias, conforme as possibilidades que se anunciam e se constroem.

TOMADA 2 – O CINEMA

Pensem quanta informação há em um filme. Há um dito popular que uma imagem vale mais que mil palavras. O que dizer então de uma película onde cada segundo é composto por 24 imagens, o que nos dá em média 172.800.000 palavras por filme. Mas a vida não é tão matematizável assim, cada pessoa vê um filme com seus olhos, o que leva o diálogo a milhares de possibilidade. Uma dela é esta que pretendo lhes apresentar, a interseção entre a arte cinematográfica e a prática de uma terapia fundamentada na filosofia.

Permitam-me um preâmbulo. É interessante imaginar o fascínio que deve ter despertado a magia da sombra nos primeiros homens. Não é difícil conceber nossos antepassados na caverna gesticulando suas mãos sob os raios do sol e reproduzindo nas paredes figuras em movimento. Talvez essa lembrança tenha percorrido a história humana e, como nos fala Menezes, chegado aos chineses e javaneses, 6.000 anos a.C. quando vieram a criar os espetáculos de sombras. Na Grécia Antiga, o conhecimento dos princípios óticos atribui-se a Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.), quando, sentado sob uma árvore, observou a imagem do sol, durante um eclipse parcial, projetando-se no solo em forma de meia lua quando seus raios passavam por um pequeno orifício entre as folhas. Também observou que quanto menor fosse o orifício, mais nítida era a imagem. Era o prenúncio da fotografia, vale lembrar que esta palavra de origem grega significa “escrever com a luz”. Também foram etapas importantes no prenúncio da fotografia as pesquisas em ótica de Euclides (360-295 a.C.), Arquimedes (287-212 a.C.) e Ptolomeu (85-165 d.C.). No Renascimento, Leonardo da Vinci (1452-1519) pode ser considerado o primeiro a ter uma noção conjunta do fenômeno cinematográfico. Demonstrou isso através de sua “câmara escura” – uma caixa fechada com uma de suas paredes feita de vidro fosco e na parede oposta, bem ao centro, um pequeno orifício que permite a passagem da luz e reflete na parede fosca, de forma invertida, uma imagem do objeto que se encontra diante daquela pequena abertura, reproduzindo assim a experiência descrita por Aristóteles. Entre os precursores de importância fundamental à evolução técnica do cinema podemos citar o jesuíta Athanasius Kirchner (1601-1680), inventor da lanterna mágica, cujo funcionamento era o oposto à câmara escura de Da Vinci, a lanterna possuía uma forma cilíndrica, iluminada a vela, projetava imagens fixas em uma lâmina de vidro.

A busca pelo movimento das imagens desenvolve-se nos meios científicos do século XIX. No final do século o inglês Eadweard James Muybridge (1830-1904) monta um complexo equipamento com vinte e quatro câmaras para analisar o galope de um cavalo. O francês Etienne-Jules Marey (1830-1904) cria o “fuzil fotográfico” capaz de tirar doze fotos em um segundo, é utilizado para fotografar e analisar o vôo dos pássaros. Procurando, em ambos os casos, fixar os movimentos rápidos que os olhos humanos não conseguem perceber. Em 28 de dezembro de 1895, clip_image010em Paris, ocorreu a primeira exibição pública do cinema. Os irmãos Auguste (1862-1954) e Louis Lumière (1864-1948) projetaram alguns filmes curtos. Um filme em especial mexeu com o público L’arrivée d’un train en gare de la Ciotat (Chegada do trem à Estação da Ciotat), que, apesar de realizados com uma câmara parada, em preto e branco e sem som, provocou comoção no público que assistia. O filme reproduzia a chegada de uma locomotiva à estação, filmada de forma que se percebia o movimento do trem até este preencher a tela como se fosse invadir a sala de projeção. Conta-se que o público levou um susto, diante da realidade que se projetava. Com certeza todos já tinham viajado ou visto um trem, a imagem em exposição era em preto e branco e não produzia som, não era um trem real, por que então assustar-se? Era a ilusão que, como diz Bernadet, “Ver o trem na tela como se fosse verdadeiro. Parece tão verdadeiro – embora a gente saiba que é de mentira – que dá para fazer de conta, enquanto dura o filme, que é de verdade”. Essa foi a grande percepção de Georges Méliès (1861-1938), um ilusionista e homem de clip_image012teatro, viu uma possibilidade de entretenimento nessa nova invenção. Mas foi logo desencorajado pelos irmãos Lumière, pois viam aquele aparelho apenas capaz de reproduzir os movimentos, um instrumento meramente científico. Méliès conseguiu um protótipo do cinematógrafo inglês Robert W. Paul, entusiasmado filmou o cotidiano parisiense e realizou alguns filmes. Um de seus filmes mais famosos foi realizado em 1902, Le Voyage dans la lune (Viagem à Lua) onde utilizou técnicas de dupla exposição do filme para obter efeitos especiais inovadores à época. Em 1967, Octávio Cortazer (1935-2008) realizou Por primera vez um documentário que mostra a exibição do filme Tempos Modernos (1936) de Charles Chaplin ao povo da zona rural clip_image014de Cuba. A reação dos habitantes comparo ao espanto que nos desperta ao pensar. A maravilha da imagem projetada, outro mundo exposto, a empatia do personagem, fazendo aquela população vivenciar o mundo chapliniano. São movimentos que nos fazem perceber a passagem das sombras de nossos antepassados às salas de projeção. O cinema realizou o sonho da imagem em movimento, da reprodução da realidade.

Walter Benjamim, em seu texto A obra de arte (1938), retrata de forma muito feliz o significado do cinema. Nos fala: “O que caracteriza o cinema não é apenas o modo pelo qual o homem se apresenta ao aparelho, é também a maneira pela qual, graças a esse aparelho, ele representa para si o mundo que o rodeia”. E é com esta premissa que iremos, enquanto filósofos clínicos, adentrar na sala de projeção.

TOMADA 3 – A FILOSOFIA CLÍNICA VAI AO CINEMA

Tendo participado de alguns encontros de Filosofia Clínica, tenho exposto um trabalho, desenvolvido em conjunto com Olga Hack, professora do Instituto Epifania, Brasília/DF, sobre a possibilidade da utilização de filmes como material didático para o ensino da Filosofia Clínica. Essa proposta começou a germinar quando, durante o nosso curso de formação em Filosofia Clínica, fomos apresentados a vários filmes como meio de aprofundarmos nosso aprendizado teórico. Em sua primeira edição, o livro “Filosofia Clínica – Propedêutica” (1997), Packter despertou-nos para essa possibilidade de utilização midiática, ao final do livro encontrava-se um lista de filmes sugeridos para a formação do filósofo clínico. Em 2001, Nichele lança o livro “Compêndio de Filosofia Clínica”, onde havia uma preocupação didática em relacionar aos filmes os tópicos da estrutura de pensamento e os submodos que mais se destacavam nas películas. Essas duas obras nos serviram de guias para iniciarmos a pesquisa. Colocamos-nos a analisar outros filmes com uma dupla finalidade, montar um curso de extensão, esse trabalho estendeu-se à nossas aulas de formação para filósofos clínicos, onde exercitamos o conhecimento dos tópicos e submodos apreendidos com os filmes selecionados para este fim. Para nós ainda existiam algumas questões a serem respondidas: Como mostrar a Filosofia Clínica entre a teoria e a prática.? Como transpor dados fenomenológicos em dados epistemológicos (empíricos)?

Ainda a Caverna de Platão

clip_image016Pensamos o cinema como um modelo suposto do real. Recorremos ao exemplo do Mito da Caverna de Platão para distinguirmos o Mundo Inteligível -das idéias – (para nós, o real) do Mundo Sensível -imagens das idéias – (para nós, o cinema). Como nos lembra Cohen-Seat na obra Elementos de Filmologia: “O cinema é de imediato testemunho universal. Servindo como serve para transformar a representação da vida, do homem e do mundo mesmo, é criador do homem, criador do mundo e instala na representação da vida uma ordem incomparável”. A Caverna de Platão, nesse sentido, pode ser vista como uma primeira idéia de representação dos modos de funcionamento da proposta da utilização de filmes no ensino da Filosofia Clínica.

clip_image018O que é a parede da caverna senão uma grande tela na qual são projetadas as sombras das reais figuras que passam pela abertura onde uma fogueira (luz) fornece a claridade para o que ocorre do lado de dentro, o que vejo pode ser determinado pelo meu ângulo de visão e a projeção o que faço dentro de minha historicidade. Um filme que pode ilustrar bem uma colheita de historicidade, guardada suas devidas proporções, é o curta de Jorge Furtado, “Esta não é sua história, nele assistiremos a história de Noeli, contada de forma cronológica, e com, aparentemente, o mínimo de intervenção do diretor. Neste filme é interessante identificar também os Tópicos 1 (como o mundo me parece), 2 (o que acha de si mesmo) e o 5 (pré-juízos). Quando ela descreve todo o contexto exterior em que nasceu, ou mesmo como se vê diante das relações e quais verdades subjetivas foram criadas a partir das relações estabelecidas por Noeli.

A Escolha do Filme

Como dito anteriormente, iniciamos nossa escolha através de duas listas existente nas obras de Lucio Packter e Nichele Paulo. Contudo para os outros filmes que vieram e virão a incorporar-se aos nossos estudos como se dá a escolha dos mesmos? Primeiro momento de forma subjetiva. Trabalhamos com uma seleção de filmes que, em nossa análise individual, abrange o que queremos demonstrar no curso. Desta forma chegamos ao segundo momento, que são os fatores que nos interessam: as personagens, a fala, a postura, as interseções, os tópicos proeminentes, os submodos informais utilizados, ou seja, os fatores que irão compor o conceito a ser demonstrado. Atingindo duas características destacadas pro Cabrera em sua obra “O Cinema Pensa”. O Pathos = afetação e o Logos = compreensão do conceito a se mostrar.

Portanto, diante das escolhas feitas “tentaremos mesclar conceitos que fundamentam as teorias da historicidade: Interpretação de fatos, conceitos, eventos relatados nos filmes da vida dos personagens e suas possíveis implicações atuais e futuras dentro do contexto exposto. A Fenomenologia que se mostra nas imagens em forma de atos e em ações nos gestos e representações dos personagens que se dispõe nos cenários mostrados nos filmes: Investigação do que aparece; divisões sucessivas em busca de informação de intencionalidade. O Empirismo contextualizado na forma de levantamento das experiências do personagem entre um contexto e outro que fora criado para elucidar os fatos narrados, numa propositura historiciada. Analítica da linguagem; ao pesquisar as relações entre termo e conceito das falas dos personagens, para a construção do ato anterior e o subseqüente. E a Epistemologia como forma de permuta de um dentro e fora do que posso perceber e introjetar para um conhecer em trocas continuadas: como a pesquisa do conteúdo dos termos transpostos. Lógica Formal: Utilizada nos exames categoriais presentes na construção de cada cena.” (HACK & SILVA).

Alguns Exemplos: Filmes e Filosofia Clínica

Para exemplificar a utilização dos filmes na Filosofia Clínica retirei da obra “Filosofia Clínica e Cinema: uma compreensão Teórico e Prática através de Filmes” escrita por mim e por Olga Hack, alguns exemplo desta possibilidade.

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Patch Adams – O Amor É Contagioso (1998) – Título Original: Patch Adams, Estados Unidos, Direção: Tom Shadyac, com Robin Williams (Patch Adams), Harold Gould (Arthur Mendelson), Michael Jeter (Rudy), Monica Potter (Carin Fischer), Philip Seymor Hoffman (Mitch),Bob Gunton (decano Wallcott), Daniel London (Truman Schiff) e Peter Coyote (Bill Davis) .

O filme é baseado na vida do médico Patch Adams que, de forma romanceada, retrata como ele buscou, e de certa forma conseguiu, uma nova forma de atuação da medicina. Um olhar humano do médico para com o paciente. Uma postura ética diante do outro. “Neste paralelo que realizamos entre o filme Patch Adams e a Filosofia Clínica está a maneira da ação em que ambas se assemelham. Como por exemplo: nas formas em estar e reconhecer na pessoa a quem se dirige um carinho e o cuidado necessário a qualquer tipo de tratamento, uma disponibilidade em implementar-se em trocas de valor. Ambas as partes estão sujeitas ao coligar da interseção, processo este, que se dá entre singularidades, entre seres únicos, no limite do espaço construído para doação e acolhimento em causas, como símbolo de uma plasticidade historiciada e em construção, em puro devir. Acreditar na capacidade de cada humano em ser diferente em suas necessidades parece algo inusitado e requerido em todos os instantes do filme, mostrar os atos de humanidade pautados na ética para com o outro desenhado por Patch é um dos nossos preceitos norteadores na Filosofia Clínica.”

clip_image022Colcha de Retalhos (1995) - Título Original: How to Make an American Quilt, Estados Unidos, Direção: Jocelyn Moorhouse, com Wynona Ryder (Finn Dodd) Anne Bancroft (Glady Joe Cleary), Ellen Burstyn (Hy Dodd), Kate Nelligan (Constance Saunders), Alfre Woodard (Marianna), Jean Simmons (Em), Kate Capshaw (Sally), Dermot Mulroney (Sam) Maya Angelou (Ana), Lois Smith (Sophia Darling).

Finn Dodd é uma estudante de pós-graduação que se retira para o rancho de sua avó, no interior dos Estados Unidos, com a finalidade de completar sua tese. Ao realizar esta viagem Finn retornar às memórias de sua infância e começar a compartilhar das memórias das amigas de sua avó. Assim como uma colcha de retalho identificamos em cada personagem que constrói a colcha uma escola filosófica. “Em muitos momentos percebemos a Filosofia Clínica como uma grande colcha de retalhos. Uma delas se dá na visão ampliada de sua constituição, ao unir em sua fundamentação parte de várias escolas, ela se apresenta como uma terapêutica alicerçada na observação de fragmentos filosóficos inseridos para compor seus tópicos, ora fundamentada no conhecimento dos filósofos, ora nas bases de um contexto prático da vida cotidiana. Foram vários anos a estudá-los e buscá-los como parte integrante da vida que o constitui autenticamente em suas reflexões; estes homens estavam intimamente ligados aos seus escritos e a vida humana. (…) Na exposição completa da colcha encontramos a impressão do conhecimento adquirido e o aperfeiçoamento, que surgirá no desvelar de cada momento do contexto estrutural trazido à luz na constância dos encontros partilhados. As diferenças entre tempo, relação, circunstância e lugar desenham uma significação na colheita categorial, levando-o ao ponto inicial em ser desvendado e desencoberto no instante de seu acontecimento, junto ao efeito mostrado pelo reviver do fato. (…) Aqui, trabalharemos as quatro linhas basilares da Filosofia Clínica através de quatro personagens; a Historicidade (Finn), que objetiva a interpretação dos fatos, conceitos e eventos, analisando o passado e suas implicações atuais e futuras; a Fenomenologia (Ana) onde é investigado o que aparece, o que se vivencia, o homem não é só a história, mas suas circunstâncias também o são e o fazem ser; o Empismo (Sophia), na composição do ater-se à experiência sensorial, onde nossas idéias provêm das experiências dos sentidos e a Analítica da Linguagem (Glady) na qual pesquisa as relações entre o conceito e o termo, o que se vive e se consegue dizer, onde buscamos a exatidão da relação entre a idéia e a palavra para uma melhor compreensão do que o outro nos quer transmitir em seus significados.”

clip_image024Baleias de Agosto (1987) - Título Original: The Whales of August , tempo de Duração: 91 minutos; Direção: Lindsay Anderson; Roteiro: David Berry, baseado em peça teatral de David Berry; Música: Alan Price; Fotografia: Mike Fash; com: Bette Davis (Libby Strong); Lillian Gish (Sarah Webber); Vincent Price (Sr. Maranov); Ann Sothern (Tisha Doughty); Harry Carey Jr. (Joshua Brackett); Frank Grimes (Sr. Beckwith); Margaret Laddy (Libby – jovem);Tisha Sterling (Tisha – jovem); Mary Steenburgen (Sarah – jovem); Frank Pitkin (Randall); Mike Bush (Randall – jovem)

O filme Baleias de Agosto retrata o crepúsculo da vida de duas irmãs e sua relação com uma comunidade de idosos. Neste exemplo trabalhamos as categorias utilizadas na Filosofia Clínica: “Assunto, Circunstância, Lugar, Tempo e Relação.

“O panorama desenhado e estruturado em análise neste capítulo, nas vias de montagem de uma compreensão, se reproduz com as histórias de vida deixadas no filme As Baleias de Agosto. As duas irmãs, Libby e Sarah, nos servem para demonstrar exemplificando, como efetuar a leitura e visualização dos detalhes que compuseram para a reconstituição das experiências vivida, como foram emolduradas por elas, as cinco categorias utilizadas pela Filosofia Clínica: assunto (imediato e último), circunstância, lugar, tempo e relação. O Filósofo Clínico ao partilhar estes relatos, forma um conceito estruturado do mundo da outra pessoa: uma representação para si mesmo da representação do outro. (PACKTER, 2000) Através da “colheita categorial” o filósofo conhecerá a situação existencial, a maneira como a pessoa vivencia a si mesmo, sua época, costumes, sociedade. Quando as cinco categorias são mescladas e começam a compor um quadro visual do outro, temos uma primeira localização existencial da pessoa.”

Buscamos elaborar um levantamento das categorias como primeiro condutor de análise via historicidade. Um entendimento dos conceitos filosóficos que fundamentam as Categorias utilizadas na Filosofia Clínica. Uma correlação possível entre a prática e a teoria nos Exames Categorias, representadas no campo prático na fala das personagens do filme e a criação de um envolvimento observacional entre o ato ser partilhante e Filósofo Clínico na Colheita Categorial.

Assim, essa forma de apresentar nosso conhecimento através desta correlação realizada através dos filmes e o princípio teórico da Filosofia Clínica, acreditamos ser possível dar uma maior claridade à terapêutica em sua linguagem constitutiva, abarcando tanto nossa face existencial entre a filosofia mater, que nos trouxe os a priori de nossos conhecimentos, aliando-os e adaptado-os aos moldes e conceitos da clínica filosófica.

Bibliografia Cinema

BERNADET, Jean-Claude. O que é cinema. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985.

CARRIÈRE, Jean-Calude. A Linguagem Secreta do Cinema. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

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COUTINHO, Evaldo. A imagem autônoma. São Paulo: Ed. Perspectiva. 1996.

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Bibliografia Filosofia Clínica

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____________ – Sensorial & Abstrato. Edições APAFIC. São Paulo. 1998

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BUBER, Martin. Eu e Tu. Cortez e Moraes, SP. 1979.

CABRERA, Julio – O Cinema Pensauma introdução à filosofia através dos filmes. Rocco. 2006

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GOYA, Will. A Escuta e o Silêncio. Goiânia: Editora da UCG. 2008.

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KRAUSE, Idalina. A arte de compartilhar. Porto Alegre: Ed. Evangraf. 2007.

PACKTER, Lúcio – Filosofia Clínica, Propedêutica. Porto Alegre: AGE Editora. 1997

________________. Passeando pela Vida. Florianópolis: Garapuvu.1999.

________________. Ana e o Dr. Finkelstein – um caso tratado com filosofia clínica. Rio de Janeiro: WAK. 2006.

________________. Semiose – aspectos traduzíveis em clínica. Fortaleza: Gráfica e Editora Fortaleza. 2002.

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STRASSBURGER, Hélio. Filosofia Clínica – poéticas da singularidade. Rio de Janeiro: E-Papers. 2007.

Sítios Virtuais

http://www.filosofiaclinica.com.br (Instituto Packter – informações sobre a Filosofia Clínica)

http://www.acafic.com.br/blog (Associação Catarinense de Filosofia Clínica – informações sobre Filosofia Clínica e Cinema)

http://www.filosofiaclinicaonline.com.br (curso de filosofia clínica on line – primeiro módulo gratuito)

http://www.youtube.com/user/luciopackter (Canal Youtube de Lucio Packter contendo programas referente à Filosofia Clínica no dia a dia)

http://topicosespeciais.wordpress.com/category/cinema (história do cinema com imagens dos precursores dos aparelhos cinematográficos)

http://www.webcine.com.br/historia1.htm (relata a história do cinema)

http://www.institut-lumiere.org/francais/films/1seance/accueil.html (francês) (contém os primeiros filmes exibidos publicamente, além dos cartazes de divulgação)

http://www.expo-marey.com/indexFR.htm (francês) (exposição sobre Ettiene-Jules Marey)

http://www.geocities.com/melies61/online_movies.html (inglês) (filmes disponibilizados de Méliès)

publicado originalmente na RUA – Revista Universitária do Audiovisual (UFSCar). Especial nº 2 – O Audiovisual sob o olhar das ciências humanas. 2008

Questões Práticas na Clínica Filosófica – Bruno Packter

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autor – Bruno Packter
título – Questões práticas na clínica filosófica
cidade – Florianópolis

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“Penso que a clínica se inicia, quando a pessoa cogita a possibilidade de fazer terapia. A partir daí, numa sucessão de eventos, ela faz a sua escolha, no que se refere o profissional que irá atende-la. Neste momento, o sujeito já esboça alterações comportamentais, como o caso de S., sem queixas de insônia, alcoolismo e depressão: “Quando decidi te procurar, indicado por uma amiga das caminhadas no parque, logo imaginei como deveria me vestir para encontra-lo, precisava arrumar o cabelo que estava horrível e escolher um sapato adequado! Ouvi dizer que filósofos clínicos não medicam, não internam e não acreditam em loucura! Afinal, agora eu tinha alguém para me entender! Naquela noite, após marcar a consulta, dormi sete horas diretas, sem precisar da minha cervejinha.”

Hélio Strassburger

Aprendemos em Filosofia Clínica que, às vezes, somos ensinados pelos partilhantes.

O que pode ser ensinado na clínica filosófica?

Também, aprendemos a fazer o trabalho clínico ouvindo, indo e retornando ao outro que nos procura, através de sua demanda existencial.

Muitas vezes, na clínica trabalharemos assuntos como: marido procurando a clínica diz: ”… gostaria de melhorar a qualidade de vida.”, a esposa: “…entender se é possível continuar este relacionamento… quero ser sujeito nesta história…”

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A realidade visionária da loucura

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autor – Hélio Strassburger
título – A realidade visionária da loucura

“(…) uma ciência que seja capaz de determinar o sentido que as coisas têm para a vida ao seu redor. Os que elaborarem este diagnóstico terão que ser treinados em significação e não em patologia, e o tratamento terá que ser feito com idéias, não com sintomas.” Clifford Geertz

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O saber local

O pressuposto para a loucura só ver miragens ou não conseguir formular idéias, encontra fundamentação nas lógicas do estrangulamento das intencionalidades. Assim, enganam-se àqueles em busca de erro, ao visar descobridor supostamente encarcerado no outro. Um olhar assim, a perder de vista, reflete-se numa cosmovisão delirante.

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