Conceito de Angústia – Kierkegaard

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“Angst”, Edvard Munch, 1894

CONCEITO DE ANGÚSTIA,
Om Begrepet Angest, 1844.
SØREN AABYE KIERKEGAARD, 1813- 1855.

Kierkegaard apresentava essa obra como “uma simples meditação psicológica para servir de introdução ao problema dogmático do pecado”. A essência da angústia é considerada a partir do pecado original: com o erro de Adão, a angústia entra na realidade humana. O homem, ao contrário do anjo e do animal, fadados à imediação, atinge uma representação dos possíveis com que se defronta na angústia como “vertigem dos possíveis”. Essa experiência, dramática, mas não menos salutar, enraíza-se no fato de que o homem é síntese de tempo e eternidade – eternidade que pode manifestar-se na angústia. Mas será preciso distinguir aqui a angústia diante do mal da angústia diante do bem, ou demoníaca, sentida pelo pecador quando percebe que poderia libertar-se do pecado. No primeiro caso, o homem escolhe o bem e, por conseguinte, a angústia diante do mal; no segundo, ele tenta fugir do bem: combatendo então o pensamento de Deus, ele chega a seu aniquilamento existencial.

Conseqüentemente, aqui – assim como no Tratado do desespero e da beatitude – a existência é vista como composição de finito e infinito, mais precisamente como síntese de alma e corpo levada pelo espírito. Na angústia, que procede de uma antecipação da posição futura do espírito, aparece a primeira ruptura da imediação sem que se possa realmente falar de liberdade – o indivíduo sente então apenas a “possibilidade de poder”. Finalmente – e aí está o profundo mistério da angústia – angustiar-se é angustiar-se por nada, apenas por poder fazer: sem ser culpado, o indivíduo desenvolve já uma compreensão do pecado antes que a angústia, diante do pecado, produza o pecado. Há assim uma relação subjetiva com o pecado de que nenhuma dogmática toma conhecimento.

Compreende-se então por que Kierkegaard foi o primeiro filósofo a depreender realmente a essência da angústia – tarefa para a qual era predisposto pela educação que recebeu do pai e pela situação espiritual daquela primeira metade do século XIX, que o levava a convencer-se da existência de uma crise do mundo ocidental. Por muito tempo associada ao medo, a angústia revelava-se como categoria existencial fundamental. Vê-se, pois, quanto deve a esse texto a análise heideggeriana da angústia como tonalidade afetiva (Stimmung) que nos coloca diante do nada (Ser e tempo).

Edição brasileira: Conceito de angústia, São Paulo, Hemus, 1968.

Estudo: O. Cauly, Kierkegaard, P.U.F., 1991.

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