Descobertas na interdição das palavras - Hélio Strassburger

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“A linguagem da poesia é essencialmente polissêmica e isso de um jeito muito próprio. Não conseguiremos escutar nada sobre a saga do dizer poético enquanto formos ao seu encontro guiados pela busca surda de um sentido unívoco.”                                      

                             Martin Heidegger

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A estrutura narrativa imprecisa refúgios de singularidade. Esboço nem sempre pronunciável para conjugar escutas aos desconhecidos endereços existenciais. Admirável poesia na pluralidade significante da loucura. Entremeios de não entendimento, um saber principia aproximação com as exóticas geografias.

Matéria-prima extravagante e destituída de significados mostra-se na expressividade das traduções compartilhadas. Ponto de vista ao visível e invisível tornarem-se uma coisa só. Lógicas da insensatez possuem um saber cigano: indescritível forasteiro a sentir-se em casa no lugar qualquer de todo lugar. Castelos, oceanos, estrelas e seus personagens, surgem de um nada a incluir tudo. O renascimento diário encontra, no entusiasmo delirante, um aliado ao surpreendente mundo novo.

Muitas vezes, entre a animação das idéias e seu dizer, a pessoa permanece encarcerada num imenso abismo. Linguagem de engenho fértil na distância aproximada onde mitos, fantasias e devaneios percorrem territórios de aparente ilusão. Pelo inaudito da insanidade a ficção esboça seus juízos.

O dizer poético do maluco permanece incógnita, até sua localização no solo propício ao plantio e florescimento. A partir dos termos agendados, regularidade expressiva e intencionalidade, o aparente sem sentido desdobra-se em inéditos, os quais apreciam insinuar-se no disfarce desatinado das crises. Um discurso dessemelhante fala de si mesmo e daquilo ainda sem vocabulário. Espécie descontínua a dialogar com a desestrutura imprecisa dos relatos novos.  

Como um artesão a esculpir sua obra de arte, o Filósofo Clínico trata de aprender com os signos imprevistos. Elabora escutas, olhares e diálogos, no lugar onde a estrutura das profecias se manifesta. Imensidão onde o contar nem sempre encontra palavras para se dizer. Fugaz insinuação na im-permanência do desatino. Essa simbologia refere-se, muitas vezes, à proteção das dialéticas para não permitir a profanação das vontades. Esconderijos oferecem nuanças por um sagrado indizível.  

Na descrição de vir-a-ser obtuso, a ficção elabora-se em fingimentos de ser improvável. Assim a lou_cura assume um papel desbravador, ao possuir visões de maior alcance. Ânimos de exaltação anunciam extraordinários percursos à intencionalidade.

Uma epistemologia desconfiada procura seguir os desvios da diversidade. Pelo caminho os fenômenos distantes da empiría esparramam vestígios de imensidão. Segredos possuem escolhas ao querer dizer ou silenciar. De qualquer forma apreciam decifrar enigmas entremeios de um e outro. Mundos inicialmente caóticos podem conceder sentidos inesperados ao dizer delirante.

Exilada de si mesma, a subjetividade esboça contradições de emancipar-se, extrapola limites e desconstrói incontáveis personagens. Aí a natureza já contém indícios para legitimar-se. 

Um aprendiz atualiza-se no caráter retrospectivo da historicidade. Laboratório da terapia a qualificar interseção com a representação fugidia das pretéritas vivências. Aspectos de sombra e luz alternam-se na estrutura caótica de um raciocinar híbrido. Na ausência de um ponto de vista conhecido, o não-dito surge, também, através dos sentimentos e intuições. Peregrino enredo a revelar inesperadas regiões da alma. 

Nesse sentido, constitui-se um encantamento ao contar que captura, na coincidência do instante, alternativas de cuidar. A própria voz das coisas fala em lacunas de esquecer e lembrar. Assim disposta, a língua revela-se como diversidade perspectiva.

O ‘pharmakós’ como feiticeiro das palavras, também é um mestre da ilusão. Possui aptidão para dialogar com a linguagem secreta em desdobramentos de indeterminação. As narrativas do sujeito encontram ressonância na rara lucidez. Alquimia a surgir das regiões desconhecidas. Percursos na aptidão em presságios de viver diferente. Abertura na distância aproximada com os recantos da condição humana. Dissolução das anterioridades em conexão de recém chegada.

Na afirmação incerta das pequenas coisas as derivações já oferecem vestígios de maior alcance. Estranha correspondência para enxergar, na visão embaçada do terapeuta um devir extraordinário ao dizer em ecos de silenciar.

Os desajustes antecipam outras verdades ao impronunciável da voz. Quiçá descontinuidades em lógicas de invenção. Fenômenos em signos de ilusão a preparar gritos, lágrimas ou desatinos em busca de poder ser compartilhado. Não há indiferença em relação aos delírios do outro, o qual reapresenta-se nos reflexos do nosso olhar.

Deste modo, a ‘epistéme’ pode ser refúgio, remédio ou veneno. A loucura, assim disposta, institui-se como arte de engendrar. Característica excepcional a conjugar novas espécies ao por vir. Para um compartilhar ainda impronunciado, o sem norte propõe elos com o aparecer extraordinário nas esteticidades.

Voz extravagante a se ouvir em aspectos de ser forasteiro. No dizer, inicialmente indiscernível, inaugura com seus desajustes, uma imensidão improvável de regiões da alma. A linguagem assim constituída insinua-se admirável. Anotações à margem da fonte de inspiração a contradizer seus códigos.

Percorrer as zonas de interdição reivindica um sujeito inconformado com as certezas cotidianas. Na im-permanência das transições os contextos de inexatidão denunciam nem sempre ser possível à coincidência entre coisas e nomes.

Territórios inexplorados antecipam-se no olhar compartilhado em deslocamentos de ir-realidade. Um mundo deixa-se mostrar na polissemia dos esconderijos. Subjetividade a disponibilizar seu devir em dialetos de sentido único.  Descontinuidades evidenciam miragens ao explorar dos invisíveis espaços. Aptidão inventiva favorecida pela literatura, música e teatro. Também nas manifestações de raridade da ficção. Um processo contraditório se faz incógnita nas reticências da semiose alienada. Aquilo que não encontra meios para se dizer, nem por isto deixa de existir.  

Um inquietar elabora-se em meio às tentativas de decifração. Na inconstância de dialogar solitário, a permanência é o olhar incrível dos outros, espécie de divisor de águas em pactos de vigilância.  

Rituais de transgressão profana reinventam pontos de partida. Sinais de vida nova nas coisas a invocar sentidos outros. Para alguém assim estruturado, os colóquios de irreflexão antevêem refúgios até então desconhecidos. Aquilo possível de vislumbrar num instante, no seguinte já mudou de forma. Lá onde a manifestação verbal tiver atingido seu maior grau de objetivação, o espírito já terá partido em direção a outras aventuras.  Uma consagra-se na armadilha conceitual de jamais alcançar a outra.

  Ao olhar difuso do terapeuta uma matéria-prima se elabora como ‘mimésis’ aos ditos incompreensíveis onde nada mais é conhecido. Panoramas se modificam a todo instante: lugares, pensamentos ou sonhos, não mais encontram vocabulário para significar-se. Trata-se aqui de reinventar a descrição mal_dita em matiz de insanidade. 

Enunciados de incerteza num discurso até então inimaginável. Na recém-chegada, as chances de se escolher o regresso, como forma de restabelecer algum equilíbrio vai aumentando. No entanto, quando se chega onde viveu, descobre-se que, também estes, já são outros lugares. Abismos epistemológicos declaram-se na intencionalidade estapafúrdia.

Colóquios de enlouquecimento anunciam espaços de precipitação, no engendrar característico das buscas. Proclamam liberdade na desintegração dos delírios. As crises abalam a pretensão das certezas. Na pluralidade das leituras realiza-se uma tradução aos irreconhecíveis sinais.

In-conclusão dessas vontades sem representação. Na periferia dos traçados proliferam complexidades de não poder dizer. Admirável poética a insinuar-se entre-dentes. Porta-voz a superar muros de não-ser. Contextos de surreal alternam-se no pensar em refúgios de exceção.  

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