SISTEMA DOS OBJETOS, Le système des objets, 1968.
JEAN BAUDRILLARD.
Nessa obra, o autor propõe-se analisar, de um ponto de vista sistemático, a relação dos homens com os objetos na sociedade de consumo. Trata-se de circunscrever um "plano de racionalidade do objeto", pois este último tem uma estrutura que lhe é própria e da qual resulta certa função, que põe em evidência uma significação independente do uso que se pode fazer do objeto. Nesses termos, a análise do autor assume a dimensão de uma "tecnologia estrutural".
A questão formulada é: como um sistema "tecnologicamente coerente" deixa de sê-lo concretamente? A resposta traz à tona vários aspectos de uma mesma realidade: o sistema é, por um lado, funcional e objetivo; arrumamos os móveis segundo uma disposição nascida das convenções burguesas, mas das quais desapareceram o gosto e a teatralidade; a posse de uma mobília produzida em série e o domínio técnico do objeto evidentemente fazem abstração das origens. Assim também, a "estrutura ambiental" cria uma atmosfera funcional, tanto pela cor reduzida a simples cálculo quanto pelo uso do vidro, matéria ambígua, na fronteira entre a comunicação e seu contrário. É um homem funcional que nasce desse universo doméstico convertido em espetáculo, presa dos mitos de eficiência funcional. Essa mutação marca o fim da dimensão simbólica: o homem é rebaixado à contemplação de seu próprio poder; nos fatos, ele se torna "disfuncional".
Por outro lado, o sistema é também não funcional e subjetivo: ao objeto moderno opõe-se o antigo, histórico, figura do originário. Numa sociedade que abstrai o passado, o anacronismo do móvel antigo denota uma falha do sistema; o último grau é o objeto de coleção, por meio do qual nos colecionamos nós mesmos. O sistema é também metafuncional (portanto disfuncional): a renovação dos objetos esgota-se numa estagnação contra a qual os únicos remédios são o "eletroeletrônico" e a automação; o consumidor torna-se irresponsável (o "eletroeletrônico" é "esquizo-funcional"), há risco de involução. Por fim, o sistema é socioeconômico: baseado numa ideologia da série, que recusa o original, alimenta-se principalmente do crédito – que antecipa o gozo do objeto e torna o consumidor irresponsável – mas também da publicidade, que é desproporcional e frustrante e sugere uma reciprocidade enganosa. Em conclusão, o autor apresenta a sociedade de consumo como uma manipulação pletórica de signos, como um sistema cuja incoerência nasce da própria frustração que ele engendra.
Crítico e sem complacência, Baudrillard está preocupado em rediscutir o sentido mesmo do universo social, em face das profundas modificações das estruturas mentais de seu tempo.
Estudo: R. Hess, Dictionnaire des philosophes, P.U.F., 1984.




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